¿dequejeito?

A arte de contar histórias

Postado em 15 de maio de 2007

Contar uma história é fácil, o difícil é terminar ela.
Sempre que eu vejo que um final vai ser sem graça, meto logo a piada do “sorvete de creme” e tcharam, salvo o texto. Mas nem sempre isso acontece, as vezes eu nem termino o texto, apenas finjo que vai ter uma segunda parte e acabo a história pela metade mesmo, deixando o resto para o nunca.

O Ronald, por exemplo.
O Ronald sempre termina as histórias dele, né. Porém ele tem o defeito sinistro de inventar finais muito ruins, A história sempre tem um começo bom, um meio bom, mas o final, o final cara, é uma merda.

Em fevereiro passado estavamos eu e Ronald Rios dentro de um coletivo, no Rio de Janeiro, enquanto o mesmo era assaltado. Os assaltantes, muito educados, requisitavam todas as carteiras, celulares e relógios.

— Vamo logo com isso, pau no cu.
— (…)
— Passa o relógio, porra.
— Eu.. eu não uso relógio. – respondeu o Ronald.
— Como não?
— Senhor Ladrão, deixa que eu explico. – intrometi.
— Pois fale.

Então eu expliquei que o Ronald tem alguns problemas mentais e por isso a mãe dele não o deixava usar relógio, celular ou carteira com dinheiro. Pois sabe como são essas coisas: nunca se pode confiar em aidéticos, deficientes mentais e judeus quando se trata de bens materiais. Porém Ronald era uma espécie de Forrest Gump da Vargem Grande, ou seja, um belo contador de histórias.

— Então esse retardado aí vem com nós.
— Como? – perguntei ao assaltante.
— Ele vai pro morro com nós e vai trampar lá.
— Mas, senhor ladrão…
— Mas nada! Nunca saí perdendo num assalto. Não vai ser hoje que vou voltar pra casa com as mãos abanando.

Então o Ronald foi obrigado a subir o morro com os marginais, a fim de prestar serviços à sociedade. Como fiel amigo que sou, não me intrometi e deixei o Ronald descer daquele ônibus e cumprir o seu destino.

Chegando no morro o Ronald ganhou um uniforme e o apelido de “Tio Ronald”. Sua função era contar histórias para as crianças da comunidade, sempre sob a supervisão de um adulto devidamente armado e pronto para encher de bala o frágil corpo de Ronald, caso suas histórias não agradassem os pequenos infantes.

Continua…

Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

Arquivos

Coisas do tempo em que o autor não sabia escrever.