¿dequejeito?

Incidentes

Postado em 14 de fevereiro de 2006

Nesta época do ano, o sul do país costuma ser quente. Aqui na minha cidade, por causa de um decreto da prefeitura, não é permitido a construção de nuvens e nem prédios com mais de sete andares, então o sol acaba pegando mesmo.

Dia desses eu estava andando pelo centro da cidade e o sol comendo solto na minha cabeça. Eu queria procurar uma sombrinha para descançar um pouco, mas infelizmente, desde 1995, é proibida a construção de sombras na cidade. (tudo por causa de um acidente entre uma árvore e um velho cego, mas isso não ve ao caso agora).

Sem nuvens e sem sombras, só me restou ir até o estabelicimento mais próximo e comprar uma garrafinha de água. Infelizmente o estabelecimento mais próximo era uma loja de materiais de construção. Pra não perder a viagem comprei uma pá para canteiro. Fui no estabelecimento seguinte e, para minha sorte, era uma padaria. O português no balcão já veio puxando assunto.

— Este sol está de matar, não é, amigo?
— Sim, e nenhuma nuvem no céu.
— Pois é. Culpa da administração de 95.
— Sei. Mas aquele acidente foi terrível…
— Mas nada justifica esta lei absurda.

Notei que, se não interferisse, o papo se extenderia por demais e eu acabaria ficando com sede. Resolvi cortar o assunto com o português.

— Mas o senhor me vê uma água.
— Tônica?
— Não… normal.
— Ah, normal. Com gás?
— Sem gás, por favor.
— Tenho uma aqui que é fluoretada.
— Não, obrigado. prefiro água mineral pura.
— Mineral pura não tenho.
— Ah… Então deixa pra lá.

Saí da padaria sem ter matado a minha sede. Do jeito que o sol tava eu até tomaria água de alguma torneira qualquer, na rua. Mas a prefeitura, infelizmente, proibiu a construção de torneiras na cidade, por causa do incidente com o velho cego.

Então eis que acontece um milagre.
Na minha frente surge um menino, com cerca de 10 anos, com uma garrafa de água mineral purinha. Tampa fechada e tudo mais. O menino parou na minha frente e começou a conversa.

— O senhor tem uma pá de canteiro aí?
— Sim, é uma pá para canteiro.
— Eu tenho uma plantação em casa. Preciso muito de uma dessas.
— Eu comprei naquela loja ali. – apontei para a loja.
— É que eu não tenho dinheiro, senhor.
— Bom, mas você tem esta garrafa de água aí.
— Sim, tenho.
— A gente poderia trocar, né?
— Poderia mesmo, senhor. Seria bom.
— Pena que a prefeitura não permite troca entre pás e águas.
— É uma lástima, senhor…

Maldito velho cego.

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Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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