¿dequejeito?

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Postado em 26 de junho de 2005

Cara, se eu contar o que me aconteceu nos últimos dias ninguém vai acreditar. Mas como, normalmente, ninguém acredita no que eu conto aqui mesmo, vou falar mesmo assim o motivo da parada que este blog sofreu nos últimos dias.

Primeiramente venho me desculpar por não escrever nada. Também gostaria de dizer que  tenho uma banda e ela não é o que se costuma chamar de “banda boa”. A gente não mereceria aparecer na MTV ou em alguma matéria da Tramavirtual. Nunca conseguimos tocar bem e por isso a minha banda sempre prima pelas grandes perfomances de palco ao invés da excelência nos acordes. Mesmo assim tem malucos por aí que nos contratam.

Era junho e iriamos fazer um show numa cidade da região.
Foi aí que eu tive a idéia de comprar morcegos de plástico. Pedi para um amigo meu que traz muamba do Paraguai me trazer, por 10 pilas, três morcegos de plástico que eram muito legais. O plano era… pegar o morcego durante o show e mastigá-lo, igual ao Ozzy. E lá se foi a minha banda rumo ao show para tocar bonito e comer morcegos. Mas qual não foi a nossa surpresa ao constatar, chegando na porta do local, que a festa onde iriamos nos apresentar se chamava “Festa dos Apaixonados”.

Pois é, bateu um pavor. Onde já se viu comer morcegos num show onde o amor era o protagonista? Então tive que pensar rapidamente. Peguei a caixa de morcegos, fui até um butequim que se localizava nas imediações e lá fiz uma troca. Por três morcegos de plástico consegui 12 algodões-doce e uma flauta de vendedor de algodão-doce que fazia um barulho muito jóinha. E vocês sabem: Algodão-doce tem tudo a ver com amor.

Estavamos prontos para o show.
Assim que subimos no palco eu puxei um algodão-doce e tasquei-lhe uma mordida afoita. Só que alguns metaleiros que, não sei o que faziam num lugar chamado “Festa dos Apaixonados”, não gostaram da minha atitude fofinha e começaram a quebrar tudo. Isso com, no máximo, uns 40 segundos de show.

A confusão se generalizou e o Quindim, o baterista, foi atingido por uma garrafa. Tentei me abrigar embaixo de uma mesa, mas ela estava reservada para uma família e não pude ficar ali. Fiquei cambaleando e desviando dos objetos que cruzavam o ar, procurando abrigo. Olhei pro palco e lá estava o John, o guitarrista, tocando “Lugar do Caralho” e comendo algodão-doce. Parecia não ter notado a confusão que havia começado e que os seus companheiros de bandas já tinham todos deixado seus postos. Depois disso eu senti uma forte pancada na nuca e apaguei.

Acordei, não sei quanto tempo depois, olhei para os lados e parecia que estavamos numa espécie de porão com pouca luz e bastante umidade. Vi sangue no chão e após esfregar meus olhos por três vezes, constatei que o Quindim e o baxista, que não tem nome, estavam ali desmaiados, ao meu lado. Tentei reanimá-los com alguns socos na cara e tive sucesso. Os dois recuperaram a consciência e acordaram.

Perguntei aonde que nós estavamos, mas os dois não sabiam responder, e nem foi preciso, pois poucos segundos depois uma pequena porta de madeira se abriu e por ela entrou um anão com um chapéu engraçado e uma corrente de cadeado na mão.

– Filhosdaputa. Vocês acabaram com a minha casa.
– Desculpa, tio. É que a gente…
– Destruíram minha festa.
– Mas…
– Nem mais nem menos. Vou deixar vocês trancados aqui até que paguem todo o prejuízo que me deram.

Vendo que o anão de chapéu engraçado e com uma corrente de cadeado na mão estava falando sério, eu tive que pensar rápido e primar pela sobrevivência da banda, ou pelo menos o que sobrou dela naquele local com tão pouca expectativa de vida.

– Senhor, a gente precisa conversar. – disse eu.
– Conversar? Conversar?
– É. A gente provavelmente vai passar muito tempo aqui.
– E daí?
– Sabe como é. Aqui tem muita umidade.
– E eu com isso?
– Bom, o meu cabelo é muito sensível. Me consegue um cremezinho?
– MAS HEIN??? – disse o anão, apavorado.
– Um cremezinho. Pra cabelos cacheados.
– Tudo bem. Me dá uns minutos.

E lá se foi o anão. Nos trancou novamente no porão e só voltou uns 15 minutos depois, com um potezinho de Fructis Fortificante para Cabelos Cacheados, da Garnier.

– Obrigado, senhor. – agradeci.
– De nada. Qualquer coisa é só pedir.

Então o Quindim extrapolou da bondade do anão e colocou em risco nossa vida naquele local.

– Senhor anão. Eu preciso de um pouco de água, por favor.
– O que?
– Água, senhor.
– Tu tá pensando que é quem?
– Mas…
– Calaboca, viado. Morre de sede aí.

E lá se foi o anão novamente, pela portinha.
Através de riscos na parede começamos a contar os dias que passamos trancados no porão. Foram dois longos dias de sofrimento e pavor que só acabaram graças à polícia, que foi alertada sobre nosso desaparecimento e conseguiu achar o local onde estavamos presos. A gente estava dormindo quando a polícia estourou a pequena porta e entrou com tudo no porão. Enfermeiros com kits de primeiros socorros vieram junto e atenderam os nossos ferrimentos. Nos levaram para fora e nos deram cobertores e água. A rua estava cheia de transeuntes, bombeiros, crianças pernetas pulando, enfermeiros, zorrilhos e políciais. Um sargento da polícia aproximou-se de mim e disse:

– Filho, vocês tem muita sorte.
– (…)
– O amigo de vocês. Tal de John, que nos chamou.
– Ele tá bem?
– Sim, ganhou altas granas tocando ali no bar nesses dois dias.
– Poxa, que legal.

Um enfermeiro que passava por perto interrompeu:

– Posso interromper, senhor? – disse o enfermeiro.
– Sim. Pode, meu jovem. – disse o sargento.
– Gostaria de elogiar este garoto.
– Pode elogiar, então.

O enfermeiro virou-se pra mim. Me estendeu a mão.
Cumprimentou-me e disse:

– Cara, esse teu cabelo tá lindo. O que você usa?

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Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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