¿dequejeito?

Sessão III – O tratamento de canal maldito

Postado em 16 de novembro de 2005

Essa coisa parece não ter fim e lá fui eu pra terceira sessão com a doutora Ingrid e sua fiel companheira assistente. Cheguei lá e já fui tomando anestesia na gengiva, que é pra aprender a não ser mané. Durante a aplicação nada confortável de anestésico me toca o telefone da Dra. Ingrid que, para meu desespero, atende.

Visualizem.
Eu deitado quase que de ponta-cabeça e a doutora aplicando com uma das mãos uma injeção do tamanho de um pau de 32cm na minha gengiva. Coma outra mão a doutora segura um telefone celular enquanto fala, calmamente com o Gustavo, seu noivo, que está no supermercado fazendo o rancho e ligou com uma dúvida: A maionese é sabor alho ou salmão?

A doutora disse que preferia a maionese de alho, mas deveria ser light. A Hellmans fabrica uma destas e é bem gostosa. Se eu tivesse dentes bons, comeria sempre. Mas voltando ao assunto, a doutora ainda ficou por mais alguns minutos falando ao telefone e aplicando anestésicos em mim.

Por culpa do Gustavo, que insistia em fazer perguntas idiotas, a doutora perdeu a concentração algumas vezes e acabou me injetando anestésico na língua. Isso me deixou um pouco sem habilidade oral.

Depois de dada a anestesia e desligado o telefone, a Dra. Ingrid começou o tratamento do dia. Fazendo a raspagem característica dos pequenos canais do meu molar enquanto comentava com a assistente sobre uma nova loja que calçados que abriu na cidade e que os preços de inauguração estavam uma loucura. A assistente, curiosa que é, pediu permissão à doutora para ir ver a vitrine da loja. Foi.

Voltou com dois pares de tênis Le Cheval. Um preto e um branco. Conforme disse a assitente, foi uma barbada. Nem 60 reais ela gastou. Mas nem tudo é alegria. Depois a doutora me fez 6 raioxizes consecutivos, com aquele canhão de raio-x mirado no meu olho. Tudo porque o dente a ser tratado ficava num local de terrível acesso.

Uma hora e meia fiquei de boca aberta e sangrando. Ela terminou o tratamento metendo fogo num esquiminha e tacando no meu dente o bagulho em chamas. Horas depois me disseram que aquilo serve para parar o sangramento. Fiquei me sentindo o rambo, com um pouco mais de sensibilidade no dente, e sem a faca.

— Gabriel, finalizamos o tratamento.
— Finalizamos?
— Sim. Você não precisa mais voltar aqui.
— Muito obrigado, doutora.
=D

E lá saiu eu, feliz e saltitante pela rua. Eu cantaria se pudesse, mas a anestesia que tomei na língua ainda não havia passado. Cheguei em casa e falei (pelo menos tentei falar) pra minha mãe que tudo havia acabado e agora eu tinha um dente bom e era um outro homem. Fiz o mesmo com meus amigos. Mandei e-mails para muita gente comunicando o fim do meu drama e já marcando uma confraternização pra sexta-feira, a fim de comemorar o final do tratamento de canal.

Depois de feito os convites, gravei uma canção dos Beatles para vocês, caros leitores batutas, que tanto acompanharam minha saga dentária. Afinal, é a última canção que vocês ouvirão desta boca, e agora língua, anestesiada. Comemorem feriado comemorem.

moskito anestesiado canta Yellow Submarine
(Arquivo .mp3 – 780 Kb)

Meia hora depois a assistente da Dra. Ingrid me liga, avisando que houve um terrível engano no tipo da anestesia que tomei e eu tinha apenas mais 5 horas de vida… Não, não. Na verdade a assistente disse que a doutora havia checado melhor os raioxizes e que meu dente ainda não estava bom. Então devo voltar lá sexta-feira pela manhã para continuar o tratamento.
Ê vidão.

Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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