¿dequejeito?

Rio de Janeiro – Parte Três

Postado em 21 de julho de 2005

Nos últimos capítulos vimos que eu acabei me dando mal na cidade grande e fui parar numa favela, trancafiado dentro de um barraco fedorento cheio de malandro armado querendo me comer e depois me matar.

A fome me matava e aquele lugar destruia meu cabelo. E vocês sabem o quanto eu odeio pontas duplas, né. Foi aí, depois de muto tempo preso, sem ver a luz do dia, abriu-se aquela porta do barraco e entrou um negão.

Parenteses:
Era um negão mesmo. Sabe quando a cor da pele da pessoa é negra? Pois é. Se pode chamar de negão. Então não me venham cagar regra de valores morais e respeito racial. Era negão e pronto, favelado também. Eu tenho culpa agora se o cara morava numa favela? Tenho que descrever a situação com *exatismo* de fatos.

— Se liga, playboy. Tu vai ser julgado hoje, truta.
— E-eu? Eu julgado?
— É, mano. O julgamento demorô pra rolar porque o Mano Sarampo, chefe aqui do morro, tava viajando. E sem ele não rola julgamento, saca?
— Ma.. mas… Vou ser julgado por que?
— Pra saber se tu vai morrer ou servir de mulherzinha pra comunidade.

A situação tava preta… Hum.. Bom, a situação tava pesada pro meu lado. Com a ajuda de mais dois camaradas, o negão, chamado de Rubão, me levou até um local estratégico que mais parecia um puteiro. Lá tinha um tapetão vermelho e várias cadeiras daquelas de metal com marcas de cerveja serigradas no encosto. Me colocaram sentado, com as mãos amarradas, numa dessa cadeiras.

De frente pra mim tinha uma espécie de pulpito feito com caixas de madeira. Ali surgiu um sujeito magrelo, de cabelos lisos e avermelhados, com uma camisa da Gaviões da Fiel. Pelo silêncio que foi feito no local, constatei que aquele homenzinho só podia ser uma pessoa: O Mano Sarampo, chefe do morro.

— Desculpem minha ausência nos últimos dias, manos. – disse o Mano Sarampo, para a cerca de 20 marginais que estavam presentes naquele julgamento. – Eu estava viajando um pouco. – completou.
— Foi pra onde, Mano Sarampo? – perguntou um neguinho da platéia.
— Eu tava em Campos do Jordão vendo o Pânico na TV.
— Orra. Da hora, hein mano.
— Sim. Muito preza.

Aí eu já não tava mais entendo nada. Enquanto os marginais favelados conversavam sobre suas viagens eu me desliguei do ambiente e comecei a prestar atenção em detalhes. Não demorei para descobrir um fato muito chocante: Todos as pessoas presentes ali estavam armadas, com armas de brinquedo. Inclusive o Mano Sarampo. Me questionei: “Que tipo de marginais são esses? Será que eles tem desmanches de Transformers e sequestram Barbies também?”.

— Eu to falando contigo, playboy.
— (….)
— Ôh, mané. Tá me igorando, mano?
— Eu? – perguntei.
— Sim, você. – disse o Mano Sarampo.
— Não.. Não senhor.
— Então, dom. Hoje tu terá teu julgamento aqui no morro.

Nisso o Mano Sarampo fez um sinal com a mão, chamando um dos seus capangas, que se aproximou. O Mano Sarampo sussurou algo no ouvido do capanga e este saiu correndo. Não deu nem um minuto e o capanga estava de volta de mão dada com uma criança de uns 11 anos de idade.

— Esse é o meu filho Samuel. Ele vai assistir o julgamento.
— Sim, senhor. – concordei.
— Então tá certo. Vamo começar com a bagaça aí, manos. Nóis vai julgar o tal playboy aí que cagoetou geral dentro do busão e fodeu com os truta que desceram o morro pra ganhar a grana sofrida do dia a dia. Quem aqui é contra a…
— Papai, papai. – grita o pequeno Samuel.
— O que foi, Samuel? Não vê que papai tá trabalhando?
— Papai, eu conheço ele. É o cara dos dedos.

A marginalada toda se estupefactou e eu também. Aquele guri tava apontando pra mim e dizendo que me conhecia. Eu não sabia o que fazer. Só restou ouvir o que o pequeno Samuel iria relatar instantes depois, que viria a mudar todo o rumo desta saga.

A História de Samuel
Conheci a história de Samuel, o menino que entregou para a Polícia Federal todas as armas dos moradores da favela e com o dinheiro que recebeu em troca, comprou um computador para colocar no seu barraco. O Mano Sarampo, por sua vez, havia feito um gato ali e o Samuel podia então acessar a internet sem grandes problemas. E foi aí que eu entrei na história.

O Samuel era visitante assíduo do meu antigo fotolog: O Dedos em Fúria e gostava bastante das fotos que eu colocava lá. Ele explicou pro seu pai, o Mano Sarampo, que eu era tipo um gênio dos dedos, que eu conseguia fazer coisas legais com qualquer objeto.

— Então vamo ver, playboy.
— Ver oque, senhor?
— Se você manda bem nos dedos, como meu moleque disse.

Então o Rubão trouxe até mim um palito de picolé e desamarrou minhas mãos.

— Mostra ae, playboy.
— Dá um frontside boardslide na cadeira, cara. – disse o pequeno Samuel.

Peguei o palito, coloquei no chão, me abaixei, alonguei os dedos, pressionei o palito contra o chão usando o indicador e o dedo do meio, me concentrei e pronto. Mandei um frontside boardslide na cadeira saindo de flip.

A marginalada toda foi a loucura e o pequeno Samuel me abraçou de felicidade. O Mano Sarampo, vendo a alegria de seu rebento e de todos os marginais ali presentes, decidiu devolver meu relógio e me soltar, com uma condição: Eu teria que reabrir meu fotolog.

Aceitei sem pestanejar.
Sai escoltado da favela, sob aplausos e de brinde ainda ganhei um pacotinho de Colomy e três picolés de limão. Ao chegar lá embaixo, no pé do morro, olhei para cima e tudo que vi foi a felicidade dos moradores, que festejavam, gritavam e davam tiros para cima com suas arminhas de plástico. Aquelas que soltam bólinhas amarelas.

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Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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