¿dequejeito?

Rio de Janeiro – Parte Dois

Postado em 19 de julho de 2005

No último capítulo vimos que o cobrador ninja, aproveitando a distração dos três amigos assaltantes, acertou com dois tiros uma das caixas de isopor que estavam no ônibus.

Nisso o ônibus brecou e os três malandrões saíram correndo, um deles levou uma caixa de isopor, os outros fugiram também mas deixaram pra trás suas caixas. De dentro daquela caixa, que foi acertada pelo disparo do cobrador, começou a jorrar água. Eu, que estava perto dela, me abaixei calmamente e abri a tampa. Dentro, por azar, tinha muitos picolés e nenhum dinheiro ou bem roubado dos passageiros. Na outra caixa que ficou também só existiam picolés.

— Tem de creme? – perguntou-me o japonês lá da frente.
— Não senhor. São todos de limão. – disse eu.
— Ah, que droga.

Os passageiros, já mais calmos, se refizeram e começaram a chupar os picolés que estavam nas caixas antes que eles derretessem. Uma criança diabética passou mal e o motorista teve que fazer escala num pronto-socorro para depois nos levar até a delegacia mais próxima prestar queixa e registrar um boletim de ocorrência.

Tudo certo. Parece que nenhum dos passageiros sofreu grandes perdas. A não ser a criança diabética que estava no hospital tomando insulina, um espanhol que perdeu uma câmera da TecPix e o japonês, que até aquela hora ainda estava indignado pela falta de picolé de creme naquelas caixas de isopor.

Eu só havia perdido meu relógio. Um relógio muito bonito e legal, coisa fina. Um apego sentimental terrível tinha eu por aquela peça, mas fazer o que. Pelo menos meu destino não foi o mais trágico, como o daqueles picolés, que foram comidos violentamente pela criança diabética. As vezes penso que a criança mereceu aquilo tudo que aconteceu. Nunca tinha visto alguém comer tantos picolés de limão de forma tão voraz. O castigo da insulina foi pouco para ela.

Depois da delegacia o ônibus foi para a garagem e os passageiros ficaram todos a pé na rua. A maioria marcou um jogo de boliche, mas eu não podia perder meu tempo com estas confraternizaçãozinhas. Eu pecisava ir para a Barra da Tijuca tratar de questões profissionais e me despedi de todos eles (exceto a criança diabética que estava no hospital, lógico). Segui até o ponto de ônibus mais próximo para pegar outra carona até a Barra.

Não demorou muito para outro ônibus com destino a Barra chegar. Quando fui embarcar, saiu pela porta o assaltante (aquele mesmo), com sua caixa de isopor. O malandro me viu e, sem pestanejar, me deu uma coronhada na cabeça, usando sua arma. Tudo que consegui foi escutar o barulho de plástico quebrando, enquanto minha visão se perdia. Antes de apagar completamente ouvi ele dizer:

— Perdeu, mano. Embaçô pros teu lado, dom.

Nunca pensei que uma arma de brinquedo pudesse ser tão “mortal”. Acordei umas quatorze horas depois, preso num barraco mal ilumidado e úmido. Algumas vozes vinham do lado de fora do barraco. A não ser pelo sotaque paulista dos marginais, conlui que aquilo só podia ser um sequestro e meu cativeiro era uma favela carioca.

Continua…

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Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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