¿dequejeito?

Festa Rave

Postado em 30 de agosto de 2005

Sabe como é a vida. E pensando nela que eu fui para oque até então seria chamada de “A minha primeira Rave”. Tal como uma namorada, estava nervoso e não sabia ao certo oque poderia encontrar dentro da festinha. Tudo que eu sabia sobre Raves é que o bagulho é bombante e tem pessoas locas pulando pros lados e com luzinhas ridículas penduradas no pescoço, braços e mãos.

Lá entrei e até que, numa primeira impressão, achei agradável. Logo na porta tinha uma menina de cabelo rosa que distribuia pulseirinhas coloridas pra galera que chegava. Eu tava com meu relógio do Shrek e disse que não precisava de pulseira. A menina entendeu e sorriu estranhamente. Então ela me deu uma aspirina colorida, rosa pra ser mais exato. Não entendi muito bem, eu nem tava com dor de cabeça. Guardei a aspirina no bolso e continuei o longo caminho do hall de entrada até a pista dançante.

Bixo, a coisa é monstro.
Na pista rolava uns lasers muito doidos cruzando o ar e a música que tocava era coisa que nem o Hermeto Pascoal conseguiria reproduzir. Um negócio dance que ficava batendo, batendo, batendo e batendo, infinitamente, até que, de repente, tudo parava e começava então uns 17 minutos de chiados, batucadas e ruídos estranhos, até que tudo explode e o batidão dance voltava com tudo. E assim ficava num looping interminável, a noite toda: Batidão, batidão, batidão, para tudo, ruídos por 17 minutos, batidão, batidão…

E as pessoas pulavam loucamente, com seus cabelos e roupas coloridas. E eu lá no meio, sem entender muita coisa e com um pouco de vergonha de fazer qualquer movimento que pudesse ser comparado com uma dança. Uma menina de meia calça toda rasgada e saia jeans tava de olho em mim e fiquei com medo, mas ela era gatinha, então se chegasse nas minha, eu até agarrava. Afinal, é uma rave. Vamos curtir! (ou seja lá o que esse pessoal grita antes de sair de casa pra ir num lugar desses).

Então me chegou um pinta muito louco, camisão xadrez, barba avermelhada por fazer e cabelos encaracolados. Parecia até aquele cantor, o Otto. Me abordou e disse:

— Aê, malaco. Te curti.
— Hein? – disse eu.
— Gostei de ti, rapaz.
— Bom, eu não.. não…
— Eu também não sou gay, calma.
— Então?
— É que você transmite um lance assim, legal.
— Ah. Obrigado.
— Vou ti dar um presente.

Então o carinha da barba vermelha abriu o bolso da minha camisa, colocou algo dentro e foi embora, desaparecendo no meio da multidão. Meti-lhe a mão no bolso e achei uma espécie de capsula, uma pílula de cor esverdeada. Seja lá o que fosse, achei que deveria tomar, em respeito ao local.

Não deu três minutos e rinocerontes de desenho animado começaram a cair do céu. Do lado esquerdo anjinhos pelados tocavam uma música do Michael Jackson em cornetas douradas. Na direita tinha quatro corvos de bico laranja. Um deles usava um chapeuzinho estilo sambista carioca.

Certa hora achei que deveria parar de ficar olhando pra chaleira que voava pelo ambiente e fui até o bar comprar uma coisa pra beber, pois minha boca estava muito seca.

— Amigo, me vê uma Pepsi.
— Pepsi?
— Sim.
— Com oque?
— Com um copo, por favor.
— Só isso?
— Tá bom. Uma pepsi, um copo e um pedaço de torta.
— Torta?
— Aquila ali, da direita. – disse eu, apontando para a torta.
— Você tá locão, hein.
— Poxa. Então me vê só a Pepsi e o copo.
— Okay.
— Coloca a Pepsi dentro do copo, de preferência.

Peguei minha Pepsi e voltei pra pista.
Na pista os raios lasers multicoloridos faziam sua dança e a rapazeada se divertia pulando. E foi nessa que eu fui. Comecei a pular loucamente e cada vez mais num ritimo frenético, que acompanhava o batidão, batidão, batidão, para tudo, ruídos por 17 minutos, batidão, batidão… Era uma loucura e eu tava adorando tudo, principalmente pônei de patins que dançava perto de mim.

Cada vez mais eu pulava mais alto e meus braços já tavam quase desgrudando do meu tronco. A coisa mais empolgante que eu já vivi. Poderia dançar daquele jeito por uns 54 anos, sem parar. Mas ouvi um barulho diferente no meio da música. E, podes crer que meus ouvidos já tavam acostumados com o batidão, batidão, batidão, para tudo, ruídos por 17 minutos, batidão, batidão.. Logo o barulho que eu ouvi não poderia ser da música que tava tocando.

Não demorou muito e minha mão começou a doer.
Parei de pular e olhei em volta. Aos meus pés estava a gatinha de saia jeans e meias rasgadas. Com um galo enorme na testa. Acho que, na empolgação, eu acabei acertando ela.

Chequei o pulso e os reflexos da menina, que retomou a consciência e foi comigo até um sofazinho. Sentamos e eu me desculpei.

— Desculpa. Foi sem querer.
— Tudo bem, eu to legal.
— Tá mesmo?
— Sim, só um pouco tonta.
— Quer algo pra beber? Uma Pepsi, um copo?
— Não precisa.
— E uma torta de limão?
— Eu só to com um pouco de dor de cabeça.
— Hum…
— Dói. Acho que minha noite acabou.
— Você quer uma aspirina?

Dei a aspirina rosa que tava no meu bolso pra menina e me ofereci para agarrá-la no sofazinho. Antes que eu pudesse ouvir uma resposta, ela deu um pulo e gritou “Vamos curtir!”. Saiu rodopiando e pulando e sacolejando os braços até a pista. Perdi ela de vista meio aos raios, rinocerontes e os demais clubbers que sacolejavam ao som do batidão, batidão, batidão, para tudo, ruídos por 17 minutos, batidão, batidão..

Decidi voltar pra casa.
Festa Rave é demais pra mim.

Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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