¿dequejeito?

Eu sempre acabo voltando

Postado em 18 de julho de 2005

O Rio de Janeiro é uma cidade até que grandinha e estava eu nessa de ir lá pra Barra da Tijuca de ônibus, afim de acertar as paradas sobre um futuro emprego na cidade mais ignominiosa do planeta. Mas isso não vem ao caso agora. O que vem ao caso agora é essa história, divida em três partes, que relatará a minha saga na cidade maravilhosa.

Rio de Janeiro – Parte Um

Então estava eu no busão lotado de cariocas, turistas espanhóis e japoneses quando que passa na catraca um malandro, cabelo raspado, bermudão, chinelo, camiseta regata e uma caixa de isopor na mão. Um japonês lá nos primeiros bancos gritou pro malandro:

— Aqui. me dá um de creme.
— De creme o que? – disse o malandro.
— Um picolé. Quero um picolé de creme.
— Não tenho picolé não, porra.
— Então o que é isso aí? – perguntou o japonês apontando pra caixa de isopor com o dedo indicador.

Foi aí que o malandro abriu a tampa da caixa de isopor, colocou a mão lá dentro, olhou pros lados como se procurasse algo, voltou o olhar pro inteiror da caixa e rapidamente sacou, lá de dentro, uma arma.

— Isso é um assalto.
— Senhor não é picolezeiro? – perguntou o japonês.
— Sou um assaltante, caralho.

O cara parecia estar muito pilhado. Sacolejava aquela arma de um lado para o outro e isso estava deixando cada vez mais nervoso o pessoal mais idoso e os turistas espanhóis do ônibus. Algumas mulheres esboçaram uns gritos que foram imediatamente acalmados por outros passageiros que tentavam manter a situação sob controle.

O assaltante começou a fazer limpa. Mandou que os passageios esvaziassem suas carteiras e bolsas dentro da caixa de isopor. Todos cumpriram suas ordens até que ele chegou no fundão do ônibus.

— Ae, cabeludo. Passa esse relógio pra cá.
— Não. – disse eu.
— Porra, moleque. Cê tá me tirando?
— Quem sabe?
— Cê é folgado, mano.
— Tu é paulista?
— O que te interessa, caralho? Passa esse relógio.
— Não.
— Tu vai querer levar bala? – ameaçou com a arma.

Então, com muita calma, me levantei do meu banco. Tirei o meu relógio do pulso, cheguei mais perto do assaltante e disse baixinho, enquanto colocava o relógio dentro da caixa de isopor:

— Se liga, mané. Da pra ver de longe que essa tua arma é de brinquedo.
— Que foi, mano? Tá pirado?
— Quer que eu conte pros outros? – sussurrei eu.
— Tu tá querendo levar bala né? – ameaçou ele.

Com certeza a arma era de brinquedo, ou eu não estaria aqui pra contar a história hoje e nem teria falado daquele jeito com o “assaltante de plástico”. E o malandro sacou que eu tava sendo até bem camarada dele por falar baixinho sobre o seu segredo. Então ele baixou a arma e procurou o meu relógio dentro da caixa, para me devolver.

Foi aí que o ônibus freiou bruscamente e a porta se abriu. Uma velhinha espanhola bateu a cabeça num banco e desmaiou. Pela porta da frente entraram dois caras vestidos completamente igual ao assaltante. Agora tinhamos três malandros com caixas de isopor dentro do ônibus.

— Fala, Confete.
— Qualé, dom. Se liga nas treta. – respondeu o assaltante.
— Como vai a família, bródi? – perguntou o cara da caixa de isopor azul.
— Bem, tudo na calmaria.
— Porra, legal te encontrar. Esse aqui é meu irmão, o Catatau.
— Qualé, Catatau. – disse o assaltante, enquanto cumprimentava calmamente o carinha da caixa de isopor amarela.

Em meio a tudo a isso estavam os passageiros completamente apavorados diante a audácia e cara de pau daqueles três malandros com caixa de isopor. Nisso o cobrador deu um berro: “Se liga, seu puto!”. E, ninjamente, pulou a catraca, sacou um revolver, rolou duas vezes no chão, levantou e atingiu com dois tiros uma das caixas de isopor que estavam ali.

Continua…

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Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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