¿dequejeito?

A Vida não Presta

Postado em 24 de maio de 2005

Corria o ano de 2002 e a faculdade de Desenho Industrial estava no seu auge dos trabalhos finais. A professora havia solicitado aos alunos que fizessem o projeto gráfico e estrutural de uma embalagem de pão, que tivesse um diferencial comparada às demais embalagens do mercado.

Na época eu era assalariado e trabalhava na empresa que pertencia à um colega de faculdade. Era meu Chefe, mas também era meu amigo e colega, por isso ele deixava eu fazer trabalhos da faculdade em horário de trabalho. Mas isso não importa por enquanto.

Vamos nos concentrar na tarefa dada pela professora. Os alunos estavam aflitos com o tal projeto e, como em toda faculdade, tinha aquela Aluninha Gostosinha que comprava trabalhos dos outros. Mas nesse caso era um pouco diferente. A Aluninha Gostosinha fazia um permuta legal com os colegas. Ela ganhava o trabalho e o bem feitor ganhava uma trepadinha casual bem delícia.

E a fama da Aluninha Gostosinha já se alastrava pelos corredores da faculdade. E todos os alunos esperavam por alguma oportunidade para poder ajudar a garota. Aliás, ela era a principal responsável pelo aprendizado dos caras, pois a galera só estudava e aprendia novas ferramentas para que no final do ano ela pedisse ajuda e eles pudessem comer daquele galeto.

Então, só existiam duas pessoas na turma que entendiam bem de embalagens. E gaças a Deus uma delas era eu. Mas como dizia Léo Jaime: “A vida não presta”. E a Aluninha Gostosinha pediu pro outro cara fazer o trabalho dela. Em troca ela daria pra ele.

Tudo bem, nem sempre pode se comer alguém por causa de uma embalagem de pão. A lástima da história é que a Aluninha Gostosinha havia pedido ajuda para aquele meu amigão, o meu Chefe. E o meu Chefe, se aproveitando dos meus serviços de empregado, me passou a tarefa de desenvolver a embalagem da Aluninha Gostosinha.

Ok, o texto é grande. Então vamos nos localizar aqui.
Meu Chefe me mandou fazer o trabalho de faculdade da Aluninha Gostosinha. Em troca eu não seria demitido do meu emprego. O meu Chefe iria comer a Aluninha Gostosinha porque ela pensava que ele é que tinha feito o trabalho de faculdade. E eu, triste, tinha dois projetos por fazer.

Por três semanas fiquei trabalhando em cima de dois projetos de embalagens de pão. Obviamente que eu guardava certa raiva do mundo por estar trabalhando dobrado sem nem ganhar uma masturbada em troca. E por isso eu me concetrei mais em fazer a minha embalagem.

A minha embalagem era algo lindo. Além de ser graficamente atraente ao consumidor, a embalagem guardava os pães de forma que não amassassem e ainda possuia uma espécie de portinha que fazia os pães sairem um a um, automaticamente. Resumindo, era uma maravilha da arte de se embalar pão.

A embalagem que eu fiz pra Aluninha Gostosinha era um saco plástico. Só isso. Nada mais.

Novembro de 2002
Os alunos todos nervosos entregavam suas embalagens de pão para a professora. Muita gente estava quase rodando e aquele projeto era a última chance. Eu estava ainda mais nervoso pois sabia que a professora não gostava de mim e poderia me rodar por qualquer errinho de português durante a apresentação do trabalho.

A Aluninha Gostosinha demonstrava muita calma, como se tivesse feito o melhor projeto de toda história panificadora mundial. Pela sua cara de felicidade, eu diria que ela até tinha trepado com alguém. O meu Chefe estava com a mesma cara, coincidentemente.

Os alunos apresentaram seus trabalhos e foram para casa. No dia seguinte chegou o telefonema que mudaria minha vida me deixaria deveras puto.

— Gabriel?
— Fala, meu querido.
— Aqui é o coordenador do curso de Desenho Industrial.
— Ooops. Olá, senhor.
— Gabriel, você foi reprovado na disciplina de Emabalagem.
— Como assim?
— A professora me informou que o seu projeto até estava bom…
— E?
— Mas você não se aplicava muito nas aulas e por isso lhe reprovou.
— Cacete.
— Oi?
— Eu disse “repete”.
— Bom, como eu sei que ela gosta de pegar no teu pé eu gostaria que você viesse aqui na faculdade hoje a noite para termos uma reunião e estudarmos uma possibilidade de você refazer o projeto, para que você não seja reprovado, né.

Muita calma nessa hora. Ela havia me reprovado mas o coordenador era legal e me daria outra chance. Fui na tal reunião, e depois de muito bate boca, a professora viu que até o coordenador estava do meu lado e resolveu apelar para a idiotice.

Pegando a minha maravilhosa embalagem de pão ultra bem feita, ela segurou firme, quase amassando tudo e disse: “Como você pode querer ser aprovado me apresentando essa porcaria?”. E eu assistia tudo sem conseguir esboçar reação. Então ela pegou a embalagem que a Aluninha Gostosinha havia apresentado e colocou na minha cara, quase me fazendo comer os pãeszinhos. E, no auge da sua ignorância, gritou:

“Gabriel, olha essa tua porcaria. Agora compara com a embalagem da ‘Aluninha Gostosinha’. Olha a diferença. Ela mereceu ser aprovada. Você não.”

Bom, a moral da história: Eu não comi ninguém.

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Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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