¿dequejeito?

Viagem ao leste da terra

Postado em 17 de novembro de 2004

Em novembro deste ano, ao fazer uma reportagem para o National Geographic, fiz uma viagem ao leste da terra. A perigosa Zona Leste de São Paulo.

Quanto mais ao leste aquele metrô ia, mais o ar ficava pesado. Muito sufoco e pavor cercam a demorada viagem, mas quando você chega ao fim da jornada, logo após ter sido assaltado quatro vezes, você entende o sentido da coisa toda. A Zona Leste paulista é uma terra abençoada.

Lá você não precisa ter um automóvel (até porque se tiver um vai ser roubado logo). Tudo que você precisa é de alguns trocados de real para pagar a condução clandestina e um par de tênis velho para dar aos assaltantes que lhe abordam no seu trajeto.

Anteriormente, o mais perto do cume lestiano que eu havia chegado era o bairro de São Miguel Paulista, onde você tem que dançar forró para provar que não é bicha e não morrer na mão dos traficantes locais. Porém aprendi coisas valiosas para a sobrevivência. Aprendi que é muito melhor você viver em São Miguel do que no Tatuapé, pois os marginais de São Miguel vão todos para o Tatuapé assaltar os jovens locais. Assim sendo São Miguel é um bairro calmo, mas nem por isso livre de certos preconceitos contra o povo branco.

“É duro ser branco em São Miguel Paulista” era a frase que me acompanhava nesta viagem. Mas eu fui muito mais ao leste. Fui até o fim da linha e descobri que no leste da terra os preconceitos não existem. Lá não interessa se você é branco, negro, amarelo, gay, deficiente ou pobre. Lá você é apenas mais um ser humano passivo de assalto. Ou as vezes você é ativo do assalto, vai saber.

Como eu já disse, sempre é bom ter dinheiro pra condução e um par de tênis velho para entregar aos assaltantes. Também é bom não usar nenhuma estampa na camiseta para não agredir, sem querer, alguma minoria ou maioria. Preferência a camisetas lisas preta ou branca. Mas cuidado, pois essas cores podem representar alguma ofensa no dialeto local.

Aliás, qualquer simples movimento de olhos ou gestos podem representar alguma agressão mortal. Cuidado. Não pisque nem levante os braços a menos que seja para chamar a condução ou para atender o pedido de um assaltante.

Caso a coisa fique preta (ou branca) corra logo para estação de trem ou metrô mais próxima, munido de alguns trocados para dar aos assaltantes que lhe abordarão na sua viagem de volta a civilização socializada.

Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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