¿dequejeito?

The Long File

Postado em 23 de dezembro de 2004

A simples tarefa de devolver um livro na biblioteca da faculdade é um ato muito curioso. Na fila de devolução, geralemente formada por umas 73 pessoas, você vê de tudo. Tem neguinho dando em cima das minazinhas, tem os fura filas, os reclamões bravos com a lentidão da coisa toda e os nervosos que ficam batendo o pé ou fazendo algum movimento repetitivo enquanto todos os outros notam.

Estava eu em uma dessas intermináveis filas demoniacas para devolver um livro chamado “Las Plantas Alucinógenas“. Já estava impaciente há quase 20 minutos parado de pé, enquanto que lá na frente uma tiazinha reclamava da taxa de multa por atraso que estavam cobrando dela.

Neste momento recebo um tapinha no ombro, me viro com o meu já conhecido simpático sorriso “não fode” e olho para trás. Era um tiozão, já com seus quarenta e poucos anos, segurando mais ou menos uns 7 livros variados. Como ele havia dado aquele tapinha? pensei.

— Oi? – disse eu, sem querer ouvir a resposta
— Olá, meu jovem.
— Eu te conheço?
— Não, creio que não me conhece.
— Eu devia te conhecer?
— Não, creio que não.
— Você me conhece?
— Não.
— Deveria?
— Não

Nos olhamos, analisamos a situação. Depois de 30 segundos de total silêncio ele resolveu quebrar o clima de “eu não entendi você” que pairava no ar e continuou a falar:

— Sabe – disse o tiozão.
— O que?
— Sua coluna – apontando em direção da minha bunda.
— O que tem minha coluna?
— Eu tava notando que ela está bem torta.
— Torta?
— É. Curvada, diria eu.
— Eu tenho lordose, mas…
— Imaginei.

Eu hein, que cara estranho que chegou. Até parece não achar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou. Resolvi virar para frente afim de acompanhar com os olhos à tia lá da frente ainda discutindo com a atendente da biblioteca. Quando sou, novamente, interrompido com um tapinha no ombro. Tentei me virar rápido desta vez, para ver se conseguia descobrir como ele estava dando tapinhas em mim sendo que carregava 7 livros em suas mãos. Sem sucesso.

— Sim? – perguntei.
— Eu estava notando que…
— Minha coluna?
— Sim.
— O que tem?
— Lordose, não?
— Sim.
— Eu queria saber se…
— O que?
— Se eu poderia ver.
— Ver o que, porra?
— Sua coluna
— Como assim?
— Queria ver como é a lordose.
— Hein?
— É que eu acho que eu também tenho, então queria comparar.
— Mas..
— Só da uma erguidinha aí na camiseta que eu vejo.

Relutei, pensei que podia se tratar de algum tarado ou gay comedor de criancinhas, mas então cheguei a conclusão de que seria uma boa história para contar pros meus filhos num futuro próximo e, então, ergui um pouco minha camiseta, mostrando minha coluna torta.

— Hum…
— Viu?
— Sim, interessante.
— O que foi?
— É diferente da minha coluna.
— É? – questionei.
— Você poderia ver minhas costas e dizer se é lordose?
— Hein?
— É, só uma olhadinha rápida.

Novamente pensei na satisfação de meus dois filhos ao ouvir esta história no futuro. Uma cena linda se formou em minha mente: tapete fofinho, chimarrão e duas crianças brincando de Resta Um enquanto eu, empolgado, conto pela quadragésima vez a história sobre o dia em que o tiozão viu minha lordose. Meus pensamentos familiares foram interrompidos pelo tal tiozão.

— Por favor. Eu preciso tirar essa dúvida.
— Tá bom. Mostra ela aí.
— Não posso.
— Porra. Por que?
— Os livros.
— Ah sim. Quer que eu segure eles?
— Não. faz assim. Você levanta minha camisa e olha.
— Ok.

Levantei a camiseta do tiozão até a metade das costas e dei uma breve e clínica olhadela analítica. As pessoas que estavam na fila já estavam notando todo aquele “homo appeal” no recinto, mas fingiram ignorar.

— Viu? – perguntou o tiozão.
— Sim.
— É lordose?
— É não, senhor.
— Ué, então é o que?
— Não sei, não vejo nada de errado.
— Nossa! Nadica?
— Nadica de nada.
— Nada mesmo?
— Nada.
— Nossa. Que bom. Obrigado.
— De nada.
— Agora vou indo. Já estou atrasado.
— Ok, até mais então.

E lá se foi o tio com seus 7 livros em direção à saída da biblioteca. A mulher lá na frente ainda estava brigando com a atendente. Abri o livro na página 64 e li mais uma vez o capítulo 8: “Como fabricar um chá alucinógeno caseiro usando apenas água, erva mate e orégano”.

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Este é o blog de Gabriel Von Doscht, um rico empresário que largou tudo para se dedicar ao seu verdadeiro dom: fazer pulseirinhas.

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